Depois de lançar à cidade um olhar final e atravessado de pura ameaça, Slays Gronguer sobe em sua mobilete, acelera firme e volta para casa. Sobe a escadaria, entra em seu quarto, liga o condicionador de ar e se deita. Olha para o teto. É um olhar mais duro, agora. Um olhar renascido. Ainda a cabeça do herói tenta apurar e alinhar e colocar em cada lugar as mudanças que lhe desceram num dia só feito um raio, transformando-o para sempre: era agora um universitário (estava no topo da elite intelectual de seu país), era o membro de um grupo revolucionário (estava no topo da elite ideológica de seu país); era, enfim, um homem importante com uma importante missão: revirar pelo avesso um mundo que se divide em oprimidos e opressores: o casamento, o contrato de trabalho, a criminalização das livres expressões, a escravidão que seguia disfarçada, a malvadeza contra os animais... Enfim: Hoje é o dia de Slays Gronguer! Bocejou num escancaro de boca que quase lhe dá câimbra no pescoço, e dormiu pesado... Que dia-a-a-a...!
– Olavinho, acorda...
Era Matilde. Ele deu as costas a ela, encolheu-se em posição fetal e cobriu a cabeça com o lençol.
Ela pousou a mão sobre as quinas do magro ombro de Slays Gronguer, numa delicadeza de colibri – mais que balançar o herói, parecia niná-lo:
– Olavinho, tá na hora da escola! Acorda...
Ele vira meia cambalhota e senta no lado oposto da cama, dando as costas à pretinha novamente.
– Porra, Matilde, que saco! E não é escola, é u-ni-ver-si-da-de!... Vá fazendo meu café que eu desço já...
– Tá, Olavinho...
Entrou no banheiro. Quando em frente ao espelho, uma dor fininha atravessou seu coração. Esquecera de algo! Cometera uma injustiça! Mas quê, que não sabia definir?! Algo doía, um remorso sem causa descoberta, uma melancolia sem rosto. O que seria? Olhou-se e se interrogou: “Slays, por que está triste, meu guerreiro? Por que seu coração revolucionário padece?” Lembrou-se: “como pôde um herói desvalorizar sua fiel escudeira?! Como pôde deixar de saudar aquela que estava ao seu lado o tempo inteiro? Como pôde ser tão egoísta a ponto de não reverenciar a relevância de quem ajuda um herói!”
Rosnou, cuspindo pasta de dentes:
– Meu Deus, não batizei minha mobiliete! Farei isso depois, pois ela será o transporte de Slays Gronguer!
Fez o gargarejo. Sentou-se à privada. Depois, tomou um banho morno, em que pecou com mão própria e se condenou a mais algumas espinhas no rosto.
Tomou seu café vendo o noticiário, como sempre, mas dessa vez com um olhar mais crítico, mais participativo, pois veria notícias de um mundo que estava fadado a padecer nas mãos do plic-ploc Slays Gronguer.
Dizia a repórter:
– A presidente, digo, a presidenta Vilma do Chefe inaugurou um porto em Cucumbia, que custou mais de um bilhão de reais. Essa obra foi muito criticada por movimentos pela liberdade que afirmam que o governo do Brasil está financiando a ditadura do ditador Amin Fiel. Vilma disse que a Cucumbia é uma democracia parceira, e que os aviões brasileiros poderiam parar no referido "aeroporto" para abastecer e trocar os pneus; uma leve gafe, logo corrigida por uma ministra assessora, que desatracou o “aero” do “porto” e tudo ficou certinho. De Brasília, Verônica Veríssimo.
Slays, o olhar agudo, bebe seu achocolatado e rosna:
– Quando a gente toma o poder, esses direitistas dizem que somos tiranos! Mas, quando eles estão no poder, dizem-se representantes do povo! Ah, as mentiras dos burgueses não vão nos impedir de entregar o poder ao povo com mão de ação! Viva o anarquismo! Parabéns, presidenta!
Do carro já ligado o pai de Slays grita, entre buzinadas:
– Olavo, vamos embora, você tá sonhando aí parado, ora p...! Deixe de ser abestado, rapaz! Seu primo não vai hoje. Vou ter que te levar de novo!
– Já vou, papai!
Saiu correndo e esbarrou a mochila na jarra de suco, que derramou pela mesa, cadeira e pelo chão. Matilde limpou tudo.
***
Ao chegar, viu aquela garotinha que afirmara não ter entendido a aula de Sociologia. Ela estava na fila da cantina. Slays ouviu quando ela disse a uma amiga:
– Não entendi nada do que ele disse! Pra mim, é enrolação. E digo mais: ninguém entendeu e todos ficaram me criticando! Ele ridicularizou a turma e todos ficaram calados! Depois, ele foi a um protesto desses que não servem pra nada! Só por causa de uma coisa pessoal dele a gente ficou com fome, sem lanchar...
– Raquel, minha querida, pois esse professor é bronca! Se ele não gostar das suas posições, reprova mesmo!
Slays parou na hora. Suas antenas revolucionárias captaram a figura com a precisão de um bisturi: “ela é inimiga: reacionária e fascista, óia! Tem quem diga, uma coisa miudinha daquelas?!” Mas, ah, ele não poderia ouvir aquilo calado! Ela falara mal de um revolucionário! Não tão importante como um plic-ploc, mas um irmão de lutas também, de protestos também! No entanto não faria sentido simplesmente travar uma discussão com ela, intrometer-se na conversa com a amiga... O que fazer, meu Deus? “Já sei (pensou ele)! Para começar, vou demonstrar a superioridade intelectual dos ‘hombres de latinamérica’! Vou sacar uma arma intelectual contra ela. Vou humilhá-la com um golpe de MPB!”
Ele entrou na fila, bem atrás dela, pensado: “ela vai se sentir uma anta perto de mim!Esses reacionários só entendem de música comercial da mídia golpista! Ela nunca pensará que sou um intelectual emepebista! Depois, hei de massacrá-la também em sala de aula!”. Esfregando as mãos mentalmente, ele começou fisicamente a assobiar, a bater o pé no chão. Depois estalou dedos balançando a mão no ar (detalhe: Slays era afinadíssimo!). Para significar que um revolucionário é estrangeiro em terra de ninguém, fora essa canção do Caetano a escolhida, e ele mandou ver:
– "O pintor Pogógan amou a luz na Baía de Guanabara/O compositor Comporte adorou as luz na noite dela/O antropólogo Coudelevistrô detestou a Baía de Guanabara/ E eu, menos a conhecê-la mais a amá-la!..."
Raquel olhou de lado, perplexa, com uma tremenda vontade de rir. E cochichava para a amiga, na medida em que a performance de Slays transcorria: “É Paul Gauguin... É Cole Porter... É Claude Lévy-Strauss... É ‘menos a conhecera mais a amara’...”
Slays notou o deboche. Empinou o nariz e pensou: “é sempre assim com essas pessoas, a gente vem com argumentos sérios e elas fazem zoada, zombam, nunca entram no mérito da questão! Para mim, essas risadinhas são prova mais que suficiente de minha vitória acachapante, pois não dá para discutir com um ignorante – eita gota, rimou!”
Slays pigarreou alto, fez um sinal de não com a cabeça e saiu, a passos firmes, sem comprar um centavo de nada.
A amiga de Raquel, rodando um sinal de doido na cabeça, pergunta:
– Você conhece ele, Raquel?
– De vista, é da minha turma... Moça, um café forte, por favor...
Pelo corredor adentro, Slays cantava bem alto:
– “O bambino Hermeto não enxerga muito bem/Uma balela, uma telenovela...”*
*O albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem/Uma baleia, uma telenovela...

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