quinta-feira, 13 de março de 2014

Capítulo 02: o horror cotidiano

Slays Gronguer acorda. A cama molhada, aquele cheiro grosso de urina saindo dos panos e grudado nos cabelos de suas pernas. Olha para as prateleiras do quarto, várias prateleiras repletas de brinquedos. Numa delas havia uma coleção de bonecos dos Comandos em Ação. Sente-se humilhando ante os soldados: será que Falcon já fez xixi na cama? Improvável... Estava prestes a ir à faculdade e a realizar seus sonhos poéticos: a luta peja justiça! Por algum motivo, sentia-se desobrigado de militar por justiça antes da faculdade: os festivais eram universitários; os artistas, universitários; os exilados, professores universitários; os perseguidos, universitários; as entrevistas a que assistia sobre justiça social eram todas dadas por membros da universidade e na plateia só havia: universitários! Meu Deus, um universitário fazendo xixi na cama! Ah, nem que desse um nó no pinto, nunca, jamais, “jamé”, em hipótese alguma faria aquilo de novo! Jurara isso a si mesmo solenemente, sentado na cama e com a mão estendida, de punho cerrado, como vira uma vez fazer um político que voltara do exílio (e parecia também com uma cena de um filme antigo que seu pai adorava): “Jamais mijarei na cama outra vez; jamais mijarei na cama outra vez !!!”

Salta da cama e grita, imperativo, à empregada que o criou desde os três anos, uma velhinha de setenta anos com a qual tinha toda intimidade de um parente:

– Matilde!... Matilde: a coca-cola me fez fazer xixi (pigarreia), digo, mijar na cama. Ela é diurética... Ajeita aqui... Troca o lençol...
– Tá, Olavinho...

Ele pensou: “Cada dia gosto menos desse nome... Olavo... Olavinho...”

Tomou um banho morno. Saiu, deixando o banheiro todo molhado. Também respingou água pelo chão do quarto todinho, principalmente quando foi pentear suas longas madeixas encaracoladas. Trocou-se. Sentou-se na cozinha, em frente à TV. Ligou-a com o controle remoto e, enquanto comia um cereal e bebia um copo de suco de laranja em caixa, ouvia o repórter dizer:

– Um policial acaba de matar um cidadão carente que invadiu a luxuosa casa de uma família. Na enorme casa estavam o neurocirurgião Guilherme Fleury, sua esposa e sua filha de cinco anos, feita refém pelo assaltante. A vítima, filho de mãe negra e morador da favela, chama-se João Matias da Silva. João foi morto covardemente pelo tiro de um fuzil importando de alta precisão, utilizado por um “sniper” treinado nos Estados Unidos. João Matias tinha feito uso de drogas, mas estava apenas com uma faca que, no momento do tiro, estava longe do pescoço da menor Maria Clara. Isso causou revolta nos grupos de Direitos Humanos, que exigem o afastamento do policial, apelidado de “O Caçador de Negros”. O deputado Orlando Alado compareceu ao lugar, e afirmou, quase em lágrimas: “Até quando nossos afrodescendentes pagarão o preço da escravidão? Até quando nossos irmãos afrodescendentes serão caçados feito animais por capitães de mato modernos? Até quando nosso presídios serão senzalas disfarçadas para afrodescendentes?”

Mordendo o cereal com força, quebrando-o nos dentes com estalos altíssimos, Slays rosna:

– Policial covarde safado opressor filho da puta...

Segue o repórter:

– À noite haverá uma manifestação em frente à casa do médico, comandada por Orlando Alado, que de lá partirá, sobre um trio elétrico, para a Secretaria de Defesa Social. O secretário se prontificou em receber os manifestantes. Daqui mesmo, falou a repórter Juliana Matoso!

Slays, com a colher parada o ar, arremata:

– Eita, só não vou porque ainda não comecei na faculdade... Deixem eu começar, bando de opressores covardes!... Matilde, traz um café com leite!
– Já vai, Olavinho!

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