Depois de lançar à cidade um olhar final e atravessado de pura ameaça, Slays Gronguer sobe em sua mobilete, acelera firme e volta para casa. Sobe a escadaria, entra em seu quarto, liga o condicionador de ar e se deita. Olha para o teto. É um olhar mais duro, agora. Um olhar renascido. Ainda a cabeça do herói tenta apurar e alinhar e colocar em cada lugar as mudanças que lhe desceram num dia só feito um raio, transformando-o para sempre: era agora um universitário (estava no topo da elite intelectual de seu país), era o membro de um grupo revolucionário (estava no topo da elite ideológica de seu país); era, enfim, um homem importante com uma importante missão: revirar pelo avesso um mundo que se divide em oprimidos e opressores: o casamento, o contrato de trabalho, a criminalização das livres expressões, a escravidão que seguia disfarçada, a malvadeza contra os animais... Enfim: Hoje é o dia de Slays Gronguer! Bocejou num escancaro de boca que quase lhe dá câimbra no pescoço, e dormiu pesado... Que dia-a-a-a...!
– Olavinho, acorda...
Era Matilde. Ele deu as costas a ela, encolheu-se em posição fetal e cobriu a cabeça com o lençol.
Ela pousou a mão sobre as quinas do magro ombro de Slays Gronguer, numa delicadeza de colibri – mais que balançar o herói, parecia niná-lo:
– Olavinho, tá na hora da escola! Acorda...
Ele vira meia cambalhota e senta no lado oposto da cama, dando as costas à pretinha novamente.
– Porra, Matilde, que saco! E não é escola, é u-ni-ver-si-da-de!... Vá fazendo meu café que eu desço já...
– Tá, Olavinho...
Entrou no banheiro. Quando em frente ao espelho, uma dor fininha atravessou seu coração. Esquecera de algo! Cometera uma injustiça! Mas quê, que não sabia definir?! Algo doía, um remorso sem causa descoberta, uma melancolia sem rosto. O que seria? Olhou-se e se interrogou: “Slays, por que está triste, meu guerreiro? Por que seu coração revolucionário padece?” Lembrou-se: “como pôde um herói desvalorizar sua fiel escudeira?! Como pôde deixar de saudar aquela que estava ao seu lado o tempo inteiro? Como pôde ser tão egoísta a ponto de não reverenciar a relevância de quem ajuda um herói!”
Rosnou, cuspindo pasta de dentes:
– Meu Deus, não batizei minha mobiliete! Farei isso depois, pois ela será o transporte de Slays Gronguer!
Fez o gargarejo. Sentou-se à privada. Depois, tomou um banho morno, em que pecou com mão própria e se condenou a mais algumas espinhas no rosto.
Tomou seu café vendo o noticiário, como sempre, mas dessa vez com um olhar mais crítico, mais participativo, pois veria notícias de um mundo que estava fadado a padecer nas mãos do plic-ploc Slays Gronguer.
Dizia a repórter:
– A presidente, digo, a presidenta Vilma do Chefe inaugurou um porto em Cucumbia, que custou mais de um bilhão de reais. Essa obra foi muito criticada por movimentos pela liberdade que afirmam que o governo do Brasil está financiando a ditadura do ditador Amin Fiel. Vilma disse que a Cucumbia é uma democracia parceira, e que os aviões brasileiros poderiam parar no referido "aeroporto" para abastecer e trocar os pneus; uma leve gafe, logo corrigida por uma ministra assessora, que desatracou o “aero” do “porto” e tudo ficou certinho. De Brasília, Verônica Veríssimo.
Slays, o olhar agudo, bebe seu achocolatado e rosna:
– Quando a gente toma o poder, esses direitistas dizem que somos tiranos! Mas, quando eles estão no poder, dizem-se representantes do povo! Ah, as mentiras dos burgueses não vão nos impedir de entregar o poder ao povo com mão de ação! Viva o anarquismo! Parabéns, presidenta!
Do carro já ligado o pai de Slays grita, entre buzinadas:
– Olavo, vamos embora, você tá sonhando aí parado, ora p...! Deixe de ser abestado, rapaz! Seu primo não vai hoje. Vou ter que te levar de novo!
– Já vou, papai!
Saiu correndo e esbarrou a mochila na jarra de suco, que derramou pela mesa, cadeira e pelo chão. Matilde limpou tudo.
***
Ao chegar, viu aquela garotinha que afirmara não ter entendido a aula de Sociologia. Ela estava na fila da cantina. Slays ouviu quando ela disse a uma amiga:
– Não entendi nada do que ele disse! Pra mim, é enrolação. E digo mais: ninguém entendeu e todos ficaram me criticando! Ele ridicularizou a turma e todos ficaram calados! Depois, ele foi a um protesto desses que não servem pra nada! Só por causa de uma coisa pessoal dele a gente ficou com fome, sem lanchar...
– Raquel, minha querida, pois esse professor é bronca! Se ele não gostar das suas posições, reprova mesmo!
Slays parou na hora. Suas antenas revolucionárias captaram a figura com a precisão de um bisturi: “ela é inimiga: reacionária e fascista, óia! Tem quem diga, uma coisa miudinha daquelas?!” Mas, ah, ele não poderia ouvir aquilo calado! Ela falara mal de um revolucionário! Não tão importante como um plic-ploc, mas um irmão de lutas também, de protestos também! No entanto não faria sentido simplesmente travar uma discussão com ela, intrometer-se na conversa com a amiga... O que fazer, meu Deus? “Já sei (pensou ele)! Para começar, vou demonstrar a superioridade intelectual dos ‘hombres de latinamérica’! Vou sacar uma arma intelectual contra ela. Vou humilhá-la com um golpe de MPB!”
Ele entrou na fila, bem atrás dela, pensado: “ela vai se sentir uma anta perto de mim!Esses reacionários só entendem de música comercial da mídia golpista! Ela nunca pensará que sou um intelectual emepebista! Depois, hei de massacrá-la também em sala de aula!”. Esfregando as mãos mentalmente, ele começou fisicamente a assobiar, a bater o pé no chão. Depois estalou dedos balançando a mão no ar (detalhe: Slays era afinadíssimo!). Para significar que um revolucionário é estrangeiro em terra de ninguém, fora essa canção do Caetano a escolhida, e ele mandou ver:
– "O pintor Pogógan amou a luz na Baía de Guanabara/O compositor Comporte adorou as luz na noite dela/O antropólogo Coudelevistrô detestou a Baía de Guanabara/ E eu, menos a conhecê-la mais a amá-la!..."
Raquel olhou de lado, perplexa, com uma tremenda vontade de rir. E cochichava para a amiga, na medida em que a performance de Slays transcorria: “É Paul Gauguin... É Cole Porter... É Claude Lévy-Strauss... É ‘menos a conhecera mais a amara’...”
Slays notou o deboche. Empinou o nariz e pensou: “é sempre assim com essas pessoas, a gente vem com argumentos sérios e elas fazem zoada, zombam, nunca entram no mérito da questão! Para mim, essas risadinhas são prova mais que suficiente de minha vitória acachapante, pois não dá para discutir com um ignorante – eita gota, rimou!”
Slays pigarreou alto, fez um sinal de não com a cabeça e saiu, a passos firmes, sem comprar um centavo de nada.
A amiga de Raquel, rodando um sinal de doido na cabeça, pergunta:
– Você conhece ele, Raquel?
– De vista, é da minha turma... Moça, um café forte, por favor...
Pelo corredor adentro, Slays cantava bem alto:
– “O bambino Hermeto não enxerga muito bem/Uma balela, uma telenovela...”*
*O albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem/Uma baleia, uma telenovela...
A Vida Heroica de Slays Gronguer!
Acompanhe a saga neoultrarrevolucionária e politicamente correta da emocionante vida do jovem mais jovem e mais antenado do Brasil: Slays Gronguer!
quinta-feira, 20 de março de 2014
sábado, 15 de março de 2014
Capítulo 04: o nascimento de um guerreiro!
Ah, o descanso do guerreiro!
Slays é bem magrinho, como sabemos. E é daqueles magricelas que comem feito desesperados e não engordam. Era como se tivesse um buraco negro dentro do bucho! Depois de devorar a deliciosa macarronada de Matilde e quase um litro de refrigerante, Slays atravessou a sala de estar, o corredor, o escritório, subiu ao primeiro andar e ligou o condicionador de ar. Deitou-se na cama. Olhava para o teto. Estreitava as pálpebras numa cerração filosofal: “Agora meu nome é Olavo, o Universitário! A bem da verdade, nasci hoje! Ontem, eu era apenas uma criança... Agora, estou no topo da hierarquia intelectual do mundo civilizado... Que frase, ein? Já sinto os efeitos do campus: “hierarquia intelectual do mundo civilizado”; uau! Abaixo de nós está a massa que precisa ser guiada... O mundo é divido entre oprimidos e opressores; o casamento, o salário mínimo, as empresas, a escravidão... Mundo desgraçado, ãããããã...!” Bocejou e caiu no sono.
Acordou às quatro horas da tarde, a boca pastosa, o corpo ainda devagar. Abriu uma latinha de coca-cola que estava no frigobar e sentou-se ao computador. Digitou no buscador as palavras “juventude” “opressão” “justiça” “luta”. Apareceu no topo um tal movimento PLIC-PLOC, num site negro com uma caveira imensa – uau!
Ele entrou e lá estava, num pergaminho digital, o solene Manifesto PLIC-PLOQUISTA:
PLIC-PLOCs somos nós!
“Nós, o movimento PLIC-PLOC, não somos propriamente um movimento. Não temos uma liderança, nem um objetivo específico. Nossa causa é dar causa a uma causa, desde que essa causa tenha sido causada por nós! Nosso poder reside na anarquia, que é a ausência de poder! Não temos ideias fixas, nem transitórias: libertamo-nos de todas as ideias! Queremos revolucionar o mundo e transformá-lo num mundo mais justo e igual, um mundo jamais existente. Que mundo será esse? É um mundo tão sublime e misterioso e lindo que nem mesmo nós, os PLIC-PLOCs, o sabemos descrever. Esse mundo só acontecerá, só mostrará seu rosto depois da revolução! Temos muito ódio do mundo capitalista, mas somos pacifistas, e quando usamos violência é para nos defender da polícia opressora que vai contra a marcha inabalável da história e nos suprime o direito de manifestação: sim, as destruições das “estátuas” do sistema, como lojas e bancos, são atos de manifestação política e artística! Aliás, nós somos a história! A civilização é o tapete sobre o qual a sociedade caminha. Dessa sociedade, não queremos nada senão que ela desapareça. Somos a favor do aborto, a favor da liberação da maconha, a favor do anarquismo, a favor do casamento gay e a favor da constituição da família gay, e somos ateus convictos; somos contra os maus tratos aos animais, contra o tabagismo, contra a supressão do direito constitucional da livre manifestação, contra a entidade familiar burguesa, e contra toda e qualquer fé em Deus e contra toda manifestação favorável ao que somos contra!
Jovens, uni-vos!
Nosso movimento é disperso e unido como um formigueiro. Vocês nos reconhecerão porque estamos sempre de preto: tênis pretos, calças pretas, blusas pretas, bonés pretos. Usamos máscaras do Jason Voorhees. E o principal: estamos sempre mascando chicletes! Assim, quando a burguesia covarde e alienada estiver nas ruas com suas crianças e anciãos, tomará um susto danado ao ouvir os pipocos da mastigação em massa da marcha revolucionária PLIC-PLOC, e se arrepiarão feito um gato siamês diante de um pitbull! Saberão que aquele barulho de saliva, aquelas bolhas estourando, aquela zoada de plástico rasgando, tudo antecede as pisadas fortes dos jovens guerreiros PLIC-PLOCs em suas máscaras de Sexta-feira13! Triunfo, amigos, sobre a barbárie!
Jovem, se você tem o mínimo senso de justiça, e se você não vendeu a alma ao sistema, junte-se a nós!”
Slays estava fascinado, emocionado, os olhos acesos! Imediatamente, começou a fazer seu cadastro no site. Nem olhou os demais, o que continham, que propostas professavam. Nada. Aquele era O site! Mas o movimento era mesmo organizado: você não podia se inscrever com o nome próprio. Eles pediam um pseudônimo, ou nome revolucionário. Slays fora pego de calça curta! Que nome, meu Deus, pensou ele? Pôs-se a andar pelo quarto, meditando:
– Tem que ser num nome forte, que abarque todas as revoluções: a russa, a cubana, a de hoje; claro, a de hoje também! Um nome que rosne, mas que signifique!
Sentou-se na bancada. Pegou um papel e, numa introspecção mediúnica, começou a se contorcer e rabiscar: Slin Jones (não, muito ianque!); Slay Tequila (não, muito mexicano!); Slays (Slays é legal!)..., mas Slays de quê? Slays Homem (não, muito fronteiriço!); Slays Gromer (sinto algo; está perto!). O cansaço mental já o abalava quando ele, num salto, grita: Slays Gronguer! Um nome novo, meio russo, meio deformado. Um nome totalmente antiburguês! Um nome adequado ao mundo novo da revolução. Digitou: S-la-y-s (espaço) G-ro-ngu-e-r (ponto). E, num gesto místico, apertou ENTER numa dedada que quase arrebenta o teclado: Inscrição realizada com sucesso!
Saiu, foi à garagem e subiu em sua mobilete (não sem antes circulá-la como um batman a contemplar o batmóvel). Foi a até a pequena colina artificial de seu condomínio e de lá lançou um olhar afiado à cidade, o mundo injusto de oprimidos e opressores. Sussurrou:
– Aqui estou! Conheça seu carrasco, cidade diabólica; conheça Slays Gronguer!
Slays é bem magrinho, como sabemos. E é daqueles magricelas que comem feito desesperados e não engordam. Era como se tivesse um buraco negro dentro do bucho! Depois de devorar a deliciosa macarronada de Matilde e quase um litro de refrigerante, Slays atravessou a sala de estar, o corredor, o escritório, subiu ao primeiro andar e ligou o condicionador de ar. Deitou-se na cama. Olhava para o teto. Estreitava as pálpebras numa cerração filosofal: “Agora meu nome é Olavo, o Universitário! A bem da verdade, nasci hoje! Ontem, eu era apenas uma criança... Agora, estou no topo da hierarquia intelectual do mundo civilizado... Que frase, ein? Já sinto os efeitos do campus: “hierarquia intelectual do mundo civilizado”; uau! Abaixo de nós está a massa que precisa ser guiada... O mundo é divido entre oprimidos e opressores; o casamento, o salário mínimo, as empresas, a escravidão... Mundo desgraçado, ãããããã...!” Bocejou e caiu no sono.
Acordou às quatro horas da tarde, a boca pastosa, o corpo ainda devagar. Abriu uma latinha de coca-cola que estava no frigobar e sentou-se ao computador. Digitou no buscador as palavras “juventude” “opressão” “justiça” “luta”. Apareceu no topo um tal movimento PLIC-PLOC, num site negro com uma caveira imensa – uau!
Ele entrou e lá estava, num pergaminho digital, o solene Manifesto PLIC-PLOQUISTA:
PLIC-PLOCs somos nós!
“Nós, o movimento PLIC-PLOC, não somos propriamente um movimento. Não temos uma liderança, nem um objetivo específico. Nossa causa é dar causa a uma causa, desde que essa causa tenha sido causada por nós! Nosso poder reside na anarquia, que é a ausência de poder! Não temos ideias fixas, nem transitórias: libertamo-nos de todas as ideias! Queremos revolucionar o mundo e transformá-lo num mundo mais justo e igual, um mundo jamais existente. Que mundo será esse? É um mundo tão sublime e misterioso e lindo que nem mesmo nós, os PLIC-PLOCs, o sabemos descrever. Esse mundo só acontecerá, só mostrará seu rosto depois da revolução! Temos muito ódio do mundo capitalista, mas somos pacifistas, e quando usamos violência é para nos defender da polícia opressora que vai contra a marcha inabalável da história e nos suprime o direito de manifestação: sim, as destruições das “estátuas” do sistema, como lojas e bancos, são atos de manifestação política e artística! Aliás, nós somos a história! A civilização é o tapete sobre o qual a sociedade caminha. Dessa sociedade, não queremos nada senão que ela desapareça. Somos a favor do aborto, a favor da liberação da maconha, a favor do anarquismo, a favor do casamento gay e a favor da constituição da família gay, e somos ateus convictos; somos contra os maus tratos aos animais, contra o tabagismo, contra a supressão do direito constitucional da livre manifestação, contra a entidade familiar burguesa, e contra toda e qualquer fé em Deus e contra toda manifestação favorável ao que somos contra!
Jovens, uni-vos!
Nosso movimento é disperso e unido como um formigueiro. Vocês nos reconhecerão porque estamos sempre de preto: tênis pretos, calças pretas, blusas pretas, bonés pretos. Usamos máscaras do Jason Voorhees. E o principal: estamos sempre mascando chicletes! Assim, quando a burguesia covarde e alienada estiver nas ruas com suas crianças e anciãos, tomará um susto danado ao ouvir os pipocos da mastigação em massa da marcha revolucionária PLIC-PLOC, e se arrepiarão feito um gato siamês diante de um pitbull! Saberão que aquele barulho de saliva, aquelas bolhas estourando, aquela zoada de plástico rasgando, tudo antecede as pisadas fortes dos jovens guerreiros PLIC-PLOCs em suas máscaras de Sexta-feira13! Triunfo, amigos, sobre a barbárie!
Jovem, se você tem o mínimo senso de justiça, e se você não vendeu a alma ao sistema, junte-se a nós!”
Slays estava fascinado, emocionado, os olhos acesos! Imediatamente, começou a fazer seu cadastro no site. Nem olhou os demais, o que continham, que propostas professavam. Nada. Aquele era O site! Mas o movimento era mesmo organizado: você não podia se inscrever com o nome próprio. Eles pediam um pseudônimo, ou nome revolucionário. Slays fora pego de calça curta! Que nome, meu Deus, pensou ele? Pôs-se a andar pelo quarto, meditando:
– Tem que ser num nome forte, que abarque todas as revoluções: a russa, a cubana, a de hoje; claro, a de hoje também! Um nome que rosne, mas que signifique!
Sentou-se na bancada. Pegou um papel e, numa introspecção mediúnica, começou a se contorcer e rabiscar: Slin Jones (não, muito ianque!); Slay Tequila (não, muito mexicano!); Slays (Slays é legal!)..., mas Slays de quê? Slays Homem (não, muito fronteiriço!); Slays Gromer (sinto algo; está perto!). O cansaço mental já o abalava quando ele, num salto, grita: Slays Gronguer! Um nome novo, meio russo, meio deformado. Um nome totalmente antiburguês! Um nome adequado ao mundo novo da revolução. Digitou: S-la-y-s (espaço) G-ro-ngu-e-r (ponto). E, num gesto místico, apertou ENTER numa dedada que quase arrebenta o teclado: Inscrição realizada com sucesso!
Saiu, foi à garagem e subiu em sua mobilete (não sem antes circulá-la como um batman a contemplar o batmóvel). Foi a até a pequena colina artificial de seu condomínio e de lá lançou um olhar afiado à cidade, o mundo injusto de oprimidos e opressores. Sussurrou:
– Aqui estou! Conheça seu carrasco, cidade diabólica; conheça Slays Gronguer!
quinta-feira, 13 de março de 2014
Capítulo 03: a faculdade, enfim!
– Mas papai, por que não?! Ôxe, papai; ôxiii!...
– Porque eu só te dei essa mobiliete pra você andar no con-do-mí-nio! Lembra?!
– Mas é só hoje, painho! Também o cara não pode nem ira até ali!... Ôxe-ô-xôxe-ôxe-ôxe!
– Não adianta, Olavo! Você vai comigo e volta de táxi! Que ideia é essa de ir à faculdade de mobilete, meu Deus?! Depois você ficará indo de carona com seu primo! Quando você aprender a dirigir, posso até te dar um carro. Depende das notas! Veremos!
– Pai, eu juro que vou só pelo acostamento (fez um gesto em linha com as mãos), pelo cantinho; bem pelo cantinho!
– Não, não e não! Ora, mas tá! É cada invenção!...
Slays rosnou baixinho:
– Vá à p...
Seu pai gritou por cima:
– É o quê, rapaz?!!!
Slays ficou vermelhíssimo. Alisou o rabo de cavalo e disse, tremendo os beiços:
– Tô brincando, coroa...
– Vá se trocar, seu cabra!
Dentro do banheiro, a porta trancada com duas voltas de chave, debaixo do chuveiro e no meio do vapor, Slays dava bananas, fazia os gestos de tomar naquele canto, segurava seus penduricalhos e os balançava, dando umbigadas e sussurrando:
– Tome aqui; tome aqui! Velho, coroa, reacionário! Olhe aqui pra você! Um dia você vai conhecer o poder da juventude! Toma-toma-toma!
Seu pai o deixou na frente da faculdade. Slays parou diante dos “portais”, aprumou a mochila, ajeitou o elástico de cabelo, deu um forte suspiro e olhou para sua basqueteira nova. De alguma maneira, aquela basqueteira lhe dava coragem para enfrentar a vida que se abria diante dele. “Me leve para a glória!”, ele pensava. Deu o primeiro passo, olhando para o bico emborrachado, os cadarços enormes e a língua que balançava. Deu mais dois passos. Sentia-se poderoso. Os calçados ao redor eram todos de pano, couro sintético, material vagabundo ou sapados sociais de bancários e funcionários públicos, e havia mesmo gente de chinelo. Como não ser superior usando uma basqueteira que deveria custar meio salário daquela gente? Enfim levantou o rosto e, altivo, dirigiu-se até sua sala. Sentou-se na primeira cadeira da primeira fila e cruzou as pernas. Assim, todos que fossem entrando seriam obrigados a olhar para sua imponente basqueteira de cano longo e língua espichada.
Chega o diretor acadêmico. Ajeita a gravata, dá as boas-vindas, fala sobre a vida do aplicador do Direito, faz uma série de considerações sobre a disciplina da vida universitária e se despede explicando que hoje eles só teriam aulas de sociologia, pois o professor e economia faltara. O de sociologia aproveitaria toda a carga horária.
Slays lembrou da jura que fizera ante o boneco Falcon e, homem de ação que é, murmurou de si para si, numa bochechada: “Sociologia... Puffff...”
Chega o professor. Careca raspado, cavanhaque sem bigode, óculos de acetato, colar de sementes, calças apertadas e camisa baby-look com estampas de cidade antiga. Cerca de trinta e cinco anos de idade. Senta-se no birô, para escândalo de alguns conservadores, cruza as pernas, ajeita as sandálias de couro, depois apoia as mãos nas quinas, sussurra e diz:
– O Direito é ferramenta social que faz parte da superestrutura social criada para lapidar um antagonismo social atávico dentro da esfera social de valores humanos adquiridos pela luta social em face da escassez de recursos que totalizam um ambiente social hostil onde se desdobra o palco social do materialismo subjacente à luta social e histórica que moldou o caráter social a um tempo opressor e subserviente de gente social que por acaso estava inserida no lugar social e tempo histórico caldo social de cultura social de uma variedade social ao mesmo tempo inassimilável e sedimentante daquilo que chamamos de integralidade desintegrada do homem social moderno e...
Uma aluna miudinha, com cara de adolescente, usando óculos fundo-de-garrafa, levanta a mão.
O professor para, respira fundo e, fazendo beicinho, diz:
– Pois não...
– Não estou entendo, professor...
Escândalo geral. Murmúrios abafados. Cochicho. Fofoca. De repente, era como se todos aqueles novatos se conhecessem desde o maternal: olhares cúmplices de ironia e incredulidade total. A bem da verdade, nem ela, nem Slays nem ninguém entendia nada. Mas a admissão causou um tremendo disse-me-disse: “Ela não entendeu! Ela não entendeu, acredita ?”
O professor pôs as costas de uma mão na testa e disse:
– Esqueci que essa é uma turma de Di-rei-to! Ai ai, “Wikipédia people...!” Será que terei de dizer aquele lance que a escassez de recursos transformou o mundo em duas classes, Oprimidos e Opressores? E que esses sempre escravizam aqueles, em qualquer lugar e época? Pela escravidão racial, pelo machismo, pela religião, pelo salário mínimo etc.? Dãh... Pois isso eu não farei! Tentem me acompanhar ou serão reprovados! E tem mais: não tem intervalo pro lanche hoje, porque tenho um protesto agendado! Vou dar as aulas direto e liberar vocês mais cedo. Comam cultura e fiquem saciados! Vamos nessa...
A aluninha recolheu-se à sua carteira, chateada, olhando atravessado para os demais. O professor deu uma reboladinha e seguiu explicando que “a integralidade social da totalidade social fragmenta o indivíduo social inserido no lado social de fora, ou não etc.” Slays só entendeu aquela parte humilhatória: “a escassez de recursos transformou o mundo em duas classes, Oprimidos e Opressores. E esses sempre escravizam aqueles, em qualquer lugar e época. Pela escravidão racial, pelo machismo, pela religião, pelo salário mínimo etc.”
Tocou a sirene. Slays Gronguer saiu da universidade. Era, finalmente, um universitário batizado! Pisava firme na basqueteira, as mãos nas alças da mochila e os cotovelos agudos para trás. Em sua cabeça, as ideias do professor de sociologia (que já tinham semente na cabeça de Slays mas que agora eram consagradas pelo fato de terem sido proferidas por um acadêmico e em ambiente universitário – shazam!), queimavam feito brasa. Slays pensava, imaginava-se, em “close”, de fora de si mesmo e vendo-se a si mesmo pensando, um universitário pensando e que ardia em pensamentos assim:
– Maldito o mundo que se divide entre opressores e oprimidos!...
Chamou um táxi. Entrou. Sentou-se no banco de trás. Disse ao taxista:
– Condomínio Betaville!
– Sim, senhor.
Olhava para a cidade e suas lojas, postos de gasolina, shoppings; o pobres operários que trabalhavam a mando de carrascos grossos e insensíveis: “maldito mundo de dominados e dominadores!”
– Chegamos, senhor.
– Tá aqui o dinheiro, cem reais...
– O senhor não tem trocado? Estou sem dinheiro miúdo...
– Mas que coisa! A obrigação é sua...
O taxista contou as pratas, foi obrigado a fazer um desconto e deu o troco a Slays, em cuja cabeça aquelas ideias ferviam, a injustiça irritava – talvez por isso tenha saído bruscamente, batendo a porta do automóvel com muita força, e nem reparando que várias moedas caíram de sua mão e rolaram pela calçada. O taxista ainda tentou avisar, mas Slays estava em transe.
Apertou a cigarra. O porteiro demorava. Ele ficou apertando, com força: tinha fome, o sol estava a pino! Sai um preto velho do banheiro da portaria, ajeitando as calças. Simpaticamente, o crioulo dá boa tarde, se desculpa e sorri. Slays sobe sem responder, pisando duro nos degraus, praguejando intimamente: “morra, mundo cão; queime, mundo injusto, injusto!”
Chega em casa, suado, faminto:
– Matilde, esquenta o almoço!
– Tá bom, Olavinho...
No telejornal, uma notícia:
– Manifestantes mascarados causam prejuízo e fazem arruaça no centro da cidade!
O lance da máscara o deslumbrou. Com garfo e faca nas mãos, ele espreme os dedos e rosna:
– É preciso ser muito cego para não ver que esses caras lutam contra a opressão. Um mundo injusto desses tem mesmo que ser destruído. Morte aos opressores! Jornalista filho da puta!... Matilde; tô com fome!
– Só um minuto, Olavinho!
O prato era macarronada com carne moída e coca-cola. Slays comeu quase sem mastigar, de muita fome que tinha. Tomou o refrigerante de uma golada só, arrotou e saiu. Na mesa, restaram o prato vazio e copo seco – ah, uns pedaços de comida que haviam caído sobre a mesa e no chão. Matilde limpou tudinho, sem problemas: salvo as costas que doíam um pouco quando ela teve de se abaixar para catar os pedaços de macarrão que estavam grudados no porcelanato.
Capítulo 02: o horror cotidiano
Slays Gronguer acorda. A cama molhada, aquele cheiro grosso de urina saindo dos panos e grudado nos cabelos de suas pernas. Olha para as prateleiras do quarto, várias prateleiras repletas de brinquedos. Numa delas havia uma coleção de bonecos dos Comandos em Ação. Sente-se humilhando ante os soldados: será que Falcon já fez xixi na cama? Improvável... Estava prestes a ir à faculdade e a realizar seus sonhos poéticos: a luta peja justiça! Por algum motivo, sentia-se desobrigado de militar por justiça antes da faculdade: os festivais eram universitários; os artistas, universitários; os exilados, professores universitários; os perseguidos, universitários; as entrevistas a que assistia sobre justiça social eram todas dadas por membros da universidade e na plateia só havia: universitários! Meu Deus, um universitário fazendo xixi na cama! Ah, nem que desse um nó no pinto, nunca, jamais, “jamé”, em hipótese alguma faria aquilo de novo! Jurara isso a si mesmo solenemente, sentado na cama e com a mão estendida, de punho cerrado, como vira uma vez fazer um político que voltara do exílio (e parecia também com uma cena de um filme antigo que seu pai adorava): “Jamais mijarei na cama outra vez; jamais mijarei na cama outra vez !!!”
Salta da cama e grita, imperativo, à empregada que o criou desde os três anos, uma velhinha de setenta anos com a qual tinha toda intimidade de um parente:
– Matilde!... Matilde: a coca-cola me fez fazer xixi (pigarreia), digo, mijar na cama. Ela é diurética... Ajeita aqui... Troca o lençol...
– Tá, Olavinho...
Ele pensou: “Cada dia gosto menos desse nome... Olavo... Olavinho...”
Tomou um banho morno. Saiu, deixando o banheiro todo molhado. Também respingou água pelo chão do quarto todinho, principalmente quando foi pentear suas longas madeixas encaracoladas. Trocou-se. Sentou-se na cozinha, em frente à TV. Ligou-a com o controle remoto e, enquanto comia um cereal e bebia um copo de suco de laranja em caixa, ouvia o repórter dizer:
– Um policial acaba de matar um cidadão carente que invadiu a luxuosa casa de uma família. Na enorme casa estavam o neurocirurgião Guilherme Fleury, sua esposa e sua filha de cinco anos, feita refém pelo assaltante. A vítima, filho de mãe negra e morador da favela, chama-se João Matias da Silva. João foi morto covardemente pelo tiro de um fuzil importando de alta precisão, utilizado por um “sniper” treinado nos Estados Unidos. João Matias tinha feito uso de drogas, mas estava apenas com uma faca que, no momento do tiro, estava longe do pescoço da menor Maria Clara. Isso causou revolta nos grupos de Direitos Humanos, que exigem o afastamento do policial, apelidado de “O Caçador de Negros”. O deputado Orlando Alado compareceu ao lugar, e afirmou, quase em lágrimas: “Até quando nossos afrodescendentes pagarão o preço da escravidão? Até quando nossos irmãos afrodescendentes serão caçados feito animais por capitães de mato modernos? Até quando nosso presídios serão senzalas disfarçadas para afrodescendentes?”
Mordendo o cereal com força, quebrando-o nos dentes com estalos altíssimos, Slays rosna:
– Policial covarde safado opressor filho da puta...
Segue o repórter:
– À noite haverá uma manifestação em frente à casa do médico, comandada por Orlando Alado, que de lá partirá, sobre um trio elétrico, para a Secretaria de Defesa Social. O secretário se prontificou em receber os manifestantes. Daqui mesmo, falou a repórter Juliana Matoso!
Slays, com a colher parada o ar, arremata:
– Eita, só não vou porque ainda não comecei na faculdade... Deixem eu começar, bando de opressores covardes!... Matilde, traz um café com leite!
– Já vai, Olavinho!
Salta da cama e grita, imperativo, à empregada que o criou desde os três anos, uma velhinha de setenta anos com a qual tinha toda intimidade de um parente:
– Matilde!... Matilde: a coca-cola me fez fazer xixi (pigarreia), digo, mijar na cama. Ela é diurética... Ajeita aqui... Troca o lençol...
– Tá, Olavinho...
Ele pensou: “Cada dia gosto menos desse nome... Olavo... Olavinho...”
Tomou um banho morno. Saiu, deixando o banheiro todo molhado. Também respingou água pelo chão do quarto todinho, principalmente quando foi pentear suas longas madeixas encaracoladas. Trocou-se. Sentou-se na cozinha, em frente à TV. Ligou-a com o controle remoto e, enquanto comia um cereal e bebia um copo de suco de laranja em caixa, ouvia o repórter dizer:
– Um policial acaba de matar um cidadão carente que invadiu a luxuosa casa de uma família. Na enorme casa estavam o neurocirurgião Guilherme Fleury, sua esposa e sua filha de cinco anos, feita refém pelo assaltante. A vítima, filho de mãe negra e morador da favela, chama-se João Matias da Silva. João foi morto covardemente pelo tiro de um fuzil importando de alta precisão, utilizado por um “sniper” treinado nos Estados Unidos. João Matias tinha feito uso de drogas, mas estava apenas com uma faca que, no momento do tiro, estava longe do pescoço da menor Maria Clara. Isso causou revolta nos grupos de Direitos Humanos, que exigem o afastamento do policial, apelidado de “O Caçador de Negros”. O deputado Orlando Alado compareceu ao lugar, e afirmou, quase em lágrimas: “Até quando nossos afrodescendentes pagarão o preço da escravidão? Até quando nossos irmãos afrodescendentes serão caçados feito animais por capitães de mato modernos? Até quando nosso presídios serão senzalas disfarçadas para afrodescendentes?”
Mordendo o cereal com força, quebrando-o nos dentes com estalos altíssimos, Slays rosna:
– Policial covarde safado opressor filho da puta...
Segue o repórter:
– À noite haverá uma manifestação em frente à casa do médico, comandada por Orlando Alado, que de lá partirá, sobre um trio elétrico, para a Secretaria de Defesa Social. O secretário se prontificou em receber os manifestantes. Daqui mesmo, falou a repórter Juliana Matoso!
Slays, com a colher parada o ar, arremata:
– Eita, só não vou porque ainda não comecei na faculdade... Deixem eu começar, bando de opressores covardes!... Matilde, traz um café com leite!
– Já vai, Olavinho!
terça-feira, 11 de março de 2014
Capitulo 01: parabéns pra você!
O heroico Slays Gronguer vem ao mundo – dos adultos!
Slays Gronguer nasceu em 1978, numa pequena capital nordestina com cara de metrópole e espírito de interior. Era filho de um engenheiro, dono de uma construtora, e de uma dona de casa. Um casal feliz. Nasceu batizado Olavo Constantino Lobo. Adulto, vinte e um anos completos, em vez de pedido faria uma reclamação íntima, sentimental e funda, ao soprar as velas:
– Nasci num ano péssimo! Novo demais pra viver a luta gloriosa contra a Ditadura Militar; e hoje talvez velho demais pra revolução de comportamento que a juventude faz, destruindo esse lixo chamado a família! Além disso, papai e mamãe me deram um nome também péssimo, muito tradicional, e que por algum motivo me faz ter um mau presságio!* Hei de mudar de nome, já que a idade não dá pra mudar! Mas tudo a seu tempo...
Fechou os olhos e, com uma expressão de malícia e clarividência, apagou as chamas das velas.
Depois, foi coberto de beijos da mãe, e seu papai abraçou-o e à esposa também, e todos, emocionados, ficaram alguns segundos entre “parabéns, meu amor!” e “obrigado, mamãe; obrigado, papai!”
Mas o melhor ainda estava por vir! Slays (ainda nesse tempo Olavo Constantino Lobo, mas vou chamá-lo de Slays desde agora, antecipando-me à autoproclamação revolucionária do nome de nosso rebelde jovem) havia pedido de presente um tênis tipo basqueteira aos pais. Tinha certeza de que o ganharia, pois era tradição da família atender aos pedidos do filho (único) Slays no aniversário. Além do mais, iria precisar dela para ir à faculdade de Direito, curso que começaria a fazer depois de ter perdido três vestibulares seguidos – perdeu na redação que, segundo os julgadores, carecia de concatenação lógica. Naquele momento, ele só possuía chinelas havaianas e um All Star surrado, ainda dos tempos de colégio – também, quase não saía de casa...
No entanto, seus pais, que estavam muito comovidos por dois motivos: a aprovação no vestibular e a simbólica chegada aos vinte e um anos, acontecimentos que os faziam, finalmente, ver seu filho como homenzinho, preparam para Slays uma surpresa ainda maior! Depois dos parabéns, a mamãe tampou seus olhos com as mãos e saiu a guiá-lo para a garagem de casa, onde seu papai o aguardava. Lá, ao redor de um embrulho enorme, em forma de pirâmide, com um laço de um metro de largura no topo, estavam seus avós, uns primos mais chegados e dois ou três amigos dos tempos de escola. A mamãe desvendou os olhos de Slays. Ele olhou, intrigado, para aquele monumental embrulho. Passou a vista também nos familiares e amigos, todos sorridentes e com olhares em brasa. Seu papai, que era, como dissemos, engenheiro, havia amarrado uma corda no topo do embrulho, com duas ou três polias e, sem mais demora, puxou-a até ver aparecer o fantástico presente de Slays...
Diante da visão, Slays permaneceu boquiaberto, sem piscar, paralisado no tempo e no espaço! Virou as palmas das mãos na direção do presente, embasbacado, incrédulo, braços estendidos. Seus pais se emocionaram e verteram lágrimas... De repente, ele dá um salto e grita:
– Ganhei uma mobilete!!!
Na garupa da mobilete havia outro embrulho, grande também, em forma de saco de Papai Noel, amarrado pela boca com uma liga de borracha. Slays o desamarrou e saiu tirando o que havia lá, e foi alinhado tudo no chão: duas joelheiras, um capacete, duas cotoveleiras e, lá no fundo, uma basqueteira, cano longo, com uma língua enorme; exatamente a que Slays havia desejado!
Correu e abraçou seus pais. O velho encarou-o e disse:
– Muito cuidado, meu filho! Eu nunca gostei dessa idéia de moto, você sabe disso! Você só pode andar com ela aqui pelo bairro, ouviu? Quando você for adulto, digo, quando tiver seu emprego e sua família, você pode comprar uma moto grande... Mas acho que a maturidade vai ensinar que o risco não vale a pena... Aproveite!
Slays vestiu seus apetrechos (basqueteira inclusive), montou na mobilete, deu umas pedaladas para acionar a partida, torceu a manopla algumas vezes, fazendo o motorzinho roncar, e saiu pelo bairro, feliz, acelerando – no começo meio desequilibrado, mas logo pegando o jeito da coisa –, ele, um jovem de corpo magérrimo e longos cabelos em rabo de cavalo.
***
Bem, não era propriamente um bairro, mas um condomínio de casas fechado e exclusivo: o Betaville...
***
Depois de muito rodar, Slays voltou para casa. Um primo, Ricardinho, de uns quinze anos, pediu para dar uma volta na mobilete. Slays olhou-o de viés, pensando “de jeito nenhum...” Mas Slays não era tonto... Sabia que se negasse só por negar, ficaria chato: Slays já era maior de idade e universitário, afinal! Ricardinho seria capaz de correr até a pérgula e falar ao seu pai, que estava tomando uísque com o pai de Slays, e eles poderiam obrigar Slays a emprestar a mobilete... Slays foi mais sagaz: alisou os cabelos do priminho e disse:
– Ricardinho, acabou a gasolina... Mas sabe de uma coisa, vovó me deu de presente Jedai War III – O Bem vence o Mal, Espanta o Temporal! Vamos jogar?
Ricardinho topou na hora, mas não sem antes lançar à mobilete um olhar de frustração, desesperança...
Jogaram videogame até altas horas, quando o pai de Ricardinho, já trocando as penas, veio chamá-lo.
– Vamox que sua mãe extá em caja...
– Tá, papai...
Saíram a pé, pois eram moradores do mesmo condomínio.
Slays achou foi bom: ficou jogando, sozinho, até mais tarde. Tinha perdido o sono com essa mistura explosiva de emoções, chocolate e coca-cola.
Para conseguir pregar os olhos, deitou-se e releu um gibi que ganhara de um amigo que conseguiu passar no vestibular de primeira – um gibi universitário! Esse gibi era interessante: coisa de adulto mesmo! Mostrava a Slays a guerra entre oprimidos e opressores, durante uma ditadura militar em Latino-América. O herói, Sancho Prático, costumava andar pelas cidades de violão em punho, espalhando pelo ar canções de protesto e flertando com as virgens que não se venderam ao sistema. Mas a poesia tinha limites!; pois, se Sancho via um militar opressor, ou um empresário rico e pançudo, sacava da valise uma flecha, esticava-a na corda mais grave (afinada em mi) do instrumento e zap!, acertava sempre! Nos militares, entre as pernas; nos empresários, na barriga: ficavam os corpos estendidos e a corda vibrando no ar uma nota triunfal!... No fim, Sancho vence a guerra e o país se torna uma festiva aldeia indígena, a Feliz-Para-Sempre, sem doenças, idiomas, livros nem tecnologia, tendo todos os imperialistas opressores sido expulsos rumo ao norte, onde vão viver suas vidas sem sentido em elegantes subúrbios repletos de futilidade.
***
Slays fechou os olhos e as páginas e se imaginou numa oca à beira de um rio, naquele país reconstruído por Sancho à imagem do passado. Um rio sereno, equilibrado, de onde vinha uma brisa friinha e com cheiro de eucalipto e mata atlântica (tipo: cheiro de jardim em dia chuvoso...); brisa boa, pura, constante e das águas direto para sua cama... Dormiu profundamente... Acordou, no entanto, com os lençóis molhados de xixi – coca-cola demais só dá nisso! Maldita coca-cola!
*Mistura de Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Lobão.
Slays Gronguer nasceu em 1978, numa pequena capital nordestina com cara de metrópole e espírito de interior. Era filho de um engenheiro, dono de uma construtora, e de uma dona de casa. Um casal feliz. Nasceu batizado Olavo Constantino Lobo. Adulto, vinte e um anos completos, em vez de pedido faria uma reclamação íntima, sentimental e funda, ao soprar as velas:
– Nasci num ano péssimo! Novo demais pra viver a luta gloriosa contra a Ditadura Militar; e hoje talvez velho demais pra revolução de comportamento que a juventude faz, destruindo esse lixo chamado a família! Além disso, papai e mamãe me deram um nome também péssimo, muito tradicional, e que por algum motivo me faz ter um mau presságio!* Hei de mudar de nome, já que a idade não dá pra mudar! Mas tudo a seu tempo...
Fechou os olhos e, com uma expressão de malícia e clarividência, apagou as chamas das velas.
Depois, foi coberto de beijos da mãe, e seu papai abraçou-o e à esposa também, e todos, emocionados, ficaram alguns segundos entre “parabéns, meu amor!” e “obrigado, mamãe; obrigado, papai!”
Mas o melhor ainda estava por vir! Slays (ainda nesse tempo Olavo Constantino Lobo, mas vou chamá-lo de Slays desde agora, antecipando-me à autoproclamação revolucionária do nome de nosso rebelde jovem) havia pedido de presente um tênis tipo basqueteira aos pais. Tinha certeza de que o ganharia, pois era tradição da família atender aos pedidos do filho (único) Slays no aniversário. Além do mais, iria precisar dela para ir à faculdade de Direito, curso que começaria a fazer depois de ter perdido três vestibulares seguidos – perdeu na redação que, segundo os julgadores, carecia de concatenação lógica. Naquele momento, ele só possuía chinelas havaianas e um All Star surrado, ainda dos tempos de colégio – também, quase não saía de casa...
No entanto, seus pais, que estavam muito comovidos por dois motivos: a aprovação no vestibular e a simbólica chegada aos vinte e um anos, acontecimentos que os faziam, finalmente, ver seu filho como homenzinho, preparam para Slays uma surpresa ainda maior! Depois dos parabéns, a mamãe tampou seus olhos com as mãos e saiu a guiá-lo para a garagem de casa, onde seu papai o aguardava. Lá, ao redor de um embrulho enorme, em forma de pirâmide, com um laço de um metro de largura no topo, estavam seus avós, uns primos mais chegados e dois ou três amigos dos tempos de escola. A mamãe desvendou os olhos de Slays. Ele olhou, intrigado, para aquele monumental embrulho. Passou a vista também nos familiares e amigos, todos sorridentes e com olhares em brasa. Seu papai, que era, como dissemos, engenheiro, havia amarrado uma corda no topo do embrulho, com duas ou três polias e, sem mais demora, puxou-a até ver aparecer o fantástico presente de Slays...
Diante da visão, Slays permaneceu boquiaberto, sem piscar, paralisado no tempo e no espaço! Virou as palmas das mãos na direção do presente, embasbacado, incrédulo, braços estendidos. Seus pais se emocionaram e verteram lágrimas... De repente, ele dá um salto e grita:
– Ganhei uma mobilete!!!
Na garupa da mobilete havia outro embrulho, grande também, em forma de saco de Papai Noel, amarrado pela boca com uma liga de borracha. Slays o desamarrou e saiu tirando o que havia lá, e foi alinhado tudo no chão: duas joelheiras, um capacete, duas cotoveleiras e, lá no fundo, uma basqueteira, cano longo, com uma língua enorme; exatamente a que Slays havia desejado!
Correu e abraçou seus pais. O velho encarou-o e disse:
– Muito cuidado, meu filho! Eu nunca gostei dessa idéia de moto, você sabe disso! Você só pode andar com ela aqui pelo bairro, ouviu? Quando você for adulto, digo, quando tiver seu emprego e sua família, você pode comprar uma moto grande... Mas acho que a maturidade vai ensinar que o risco não vale a pena... Aproveite!
Slays vestiu seus apetrechos (basqueteira inclusive), montou na mobilete, deu umas pedaladas para acionar a partida, torceu a manopla algumas vezes, fazendo o motorzinho roncar, e saiu pelo bairro, feliz, acelerando – no começo meio desequilibrado, mas logo pegando o jeito da coisa –, ele, um jovem de corpo magérrimo e longos cabelos em rabo de cavalo.
***
Bem, não era propriamente um bairro, mas um condomínio de casas fechado e exclusivo: o Betaville...
***
Depois de muito rodar, Slays voltou para casa. Um primo, Ricardinho, de uns quinze anos, pediu para dar uma volta na mobilete. Slays olhou-o de viés, pensando “de jeito nenhum...” Mas Slays não era tonto... Sabia que se negasse só por negar, ficaria chato: Slays já era maior de idade e universitário, afinal! Ricardinho seria capaz de correr até a pérgula e falar ao seu pai, que estava tomando uísque com o pai de Slays, e eles poderiam obrigar Slays a emprestar a mobilete... Slays foi mais sagaz: alisou os cabelos do priminho e disse:
– Ricardinho, acabou a gasolina... Mas sabe de uma coisa, vovó me deu de presente Jedai War III – O Bem vence o Mal, Espanta o Temporal! Vamos jogar?
Ricardinho topou na hora, mas não sem antes lançar à mobilete um olhar de frustração, desesperança...
Jogaram videogame até altas horas, quando o pai de Ricardinho, já trocando as penas, veio chamá-lo.
– Vamox que sua mãe extá em caja...
– Tá, papai...
Saíram a pé, pois eram moradores do mesmo condomínio.
Slays achou foi bom: ficou jogando, sozinho, até mais tarde. Tinha perdido o sono com essa mistura explosiva de emoções, chocolate e coca-cola.
Para conseguir pregar os olhos, deitou-se e releu um gibi que ganhara de um amigo que conseguiu passar no vestibular de primeira – um gibi universitário! Esse gibi era interessante: coisa de adulto mesmo! Mostrava a Slays a guerra entre oprimidos e opressores, durante uma ditadura militar em Latino-América. O herói, Sancho Prático, costumava andar pelas cidades de violão em punho, espalhando pelo ar canções de protesto e flertando com as virgens que não se venderam ao sistema. Mas a poesia tinha limites!; pois, se Sancho via um militar opressor, ou um empresário rico e pançudo, sacava da valise uma flecha, esticava-a na corda mais grave (afinada em mi) do instrumento e zap!, acertava sempre! Nos militares, entre as pernas; nos empresários, na barriga: ficavam os corpos estendidos e a corda vibrando no ar uma nota triunfal!... No fim, Sancho vence a guerra e o país se torna uma festiva aldeia indígena, a Feliz-Para-Sempre, sem doenças, idiomas, livros nem tecnologia, tendo todos os imperialistas opressores sido expulsos rumo ao norte, onde vão viver suas vidas sem sentido em elegantes subúrbios repletos de futilidade.
***
Slays fechou os olhos e as páginas e se imaginou numa oca à beira de um rio, naquele país reconstruído por Sancho à imagem do passado. Um rio sereno, equilibrado, de onde vinha uma brisa friinha e com cheiro de eucalipto e mata atlântica (tipo: cheiro de jardim em dia chuvoso...); brisa boa, pura, constante e das águas direto para sua cama... Dormiu profundamente... Acordou, no entanto, com os lençóis molhados de xixi – coca-cola demais só dá nisso! Maldita coca-cola!
*Mistura de Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Lobão.
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