quinta-feira, 13 de março de 2014

Capítulo 03: a faculdade, enfim!


– Mas papai, por que não?! Ôxe, papai; ôxiii!...
– Porque eu só te dei essa mobiliete pra você andar no con-do-mí-nio! Lembra?!
– Mas é só hoje, painho! Também o cara não pode nem ira até ali!... Ôxe-ô-xôxe-ôxe-ôxe!
– Não adianta, Olavo! Você vai comigo e volta de táxi! Que ideia é essa de ir à faculdade de mobilete, meu Deus?! Depois você ficará indo de carona com seu primo! Quando você aprender a dirigir, posso até te dar um carro. Depende das notas! Veremos!
– Pai, eu juro que vou só pelo acostamento (fez um gesto em linha com as mãos), pelo cantinho; bem pelo cantinho!
– Não, não e não! Ora, mas tá! É cada invenção!...
Slays rosnou baixinho:
– Vá à p...

Seu pai gritou por cima:

– É o quê, rapaz?!!!

Slays ficou vermelhíssimo. Alisou o rabo de cavalo e disse, tremendo os beiços:

– Tô brincando, coroa...
– Vá se trocar, seu cabra!

Dentro do banheiro, a porta trancada com duas voltas de chave, debaixo do chuveiro e no meio do vapor, Slays dava bananas, fazia os gestos de tomar naquele canto, segurava seus penduricalhos e os balançava, dando umbigadas e sussurrando:

– Tome aqui; tome aqui! Velho, coroa, reacionário! Olhe aqui pra você! Um dia você vai conhecer o poder da juventude! Toma-toma-toma!

Seu pai o deixou na frente da faculdade. Slays parou diante dos “portais”, aprumou a mochila, ajeitou o elástico de cabelo, deu um forte suspiro e olhou para sua basqueteira nova. De alguma maneira, aquela basqueteira lhe dava coragem para enfrentar a vida que se abria diante dele. “Me leve para a glória!”, ele pensava. Deu o primeiro passo, olhando para o bico emborrachado, os cadarços enormes e a língua que balançava. Deu mais dois passos. Sentia-se poderoso. Os calçados ao redor eram todos de pano, couro sintético, material vagabundo ou sapados sociais de bancários e funcionários públicos, e havia mesmo gente de chinelo. Como não ser superior usando uma basqueteira que deveria custar meio salário daquela gente? Enfim levantou o rosto e, altivo, dirigiu-se até sua sala. Sentou-se na primeira cadeira da primeira fila e cruzou as pernas. Assim, todos que fossem entrando seriam obrigados a olhar para sua imponente basqueteira de cano longo e língua espichada.

Chega o diretor acadêmico. Ajeita a gravata, dá as boas-vindas, fala sobre a vida do aplicador do Direito, faz uma série de considerações sobre a disciplina da vida universitária e se despede explicando que hoje eles só teriam aulas de sociologia, pois o professor e economia faltara. O de sociologia aproveitaria toda a carga horária.

Slays lembrou da jura que fizera ante o boneco Falcon e, homem de ação que é, murmurou de si para si, numa bochechada: “Sociologia... Puffff...”

Chega o professor. Careca raspado, cavanhaque sem bigode, óculos de acetato, colar de sementes, calças apertadas e camisa baby-look com estampas de cidade antiga. Cerca de trinta e cinco anos de idade. Senta-se no birô, para escândalo de alguns conservadores, cruza as pernas, ajeita as sandálias de couro, depois apoia as mãos nas quinas, sussurra e diz:

– O Direito é ferramenta social que faz parte da superestrutura social criada para lapidar um antagonismo social atávico dentro da esfera social de valores humanos adquiridos pela luta social em face da escassez de recursos que totalizam um ambiente social hostil onde se desdobra o palco social do materialismo subjacente à luta social e histórica que moldou o caráter social a um tempo opressor e subserviente de gente social que por acaso estava inserida no lugar social e tempo histórico caldo social de cultura social de uma variedade social ao mesmo tempo inassimilável e sedimentante daquilo que chamamos de integralidade desintegrada do homem social moderno e...

Uma aluna miudinha, com cara de adolescente, usando óculos fundo-de-garrafa, levanta a mão.

O professor para, respira fundo e, fazendo beicinho, diz:

– Pois não...
– Não estou entendo, professor...

Escândalo geral. Murmúrios abafados. Cochicho. Fofoca. De repente, era como se todos aqueles novatos se conhecessem desde o maternal: olhares cúmplices de ironia e incredulidade total. A bem da verdade, nem ela, nem Slays nem ninguém entendia nada. Mas a admissão causou um tremendo disse-me-disse: “Ela não entendeu! Ela não entendeu, acredita ?”

O professor pôs as costas de uma mão na testa e disse:

– Esqueci que essa é uma turma de Di-rei-to! Ai ai, “Wikipédia people...!” Será que terei de dizer aquele lance que a escassez de recursos transformou o mundo em duas classes, Oprimidos e Opressores? E que esses sempre escravizam aqueles, em qualquer lugar e época? Pela escravidão racial, pelo machismo, pela religião, pelo salário mínimo etc.? Dãh... Pois isso eu não farei! Tentem me acompanhar ou serão reprovados! E tem mais: não tem intervalo pro lanche hoje, porque tenho um protesto agendado! Vou dar as aulas direto e liberar vocês mais cedo. Comam cultura e fiquem saciados! Vamos nessa...

A aluninha recolheu-se à sua carteira, chateada, olhando atravessado para os demais. O professor deu uma reboladinha e seguiu explicando que “a integralidade social da totalidade social fragmenta o indivíduo social inserido no lado social de fora, ou não etc.” Slays só entendeu aquela parte humilhatória: “a escassez de recursos transformou o mundo em duas classes, Oprimidos e Opressores. E esses sempre escravizam aqueles, em qualquer lugar e época. Pela escravidão racial, pelo machismo, pela religião, pelo salário mínimo etc.”

Tocou a sirene. Slays Gronguer saiu da universidade. Era, finalmente, um universitário batizado! Pisava firme na basqueteira, as mãos nas alças da mochila e os cotovelos agudos para trás. Em sua cabeça, as ideias do professor de sociologia (que já tinham semente na cabeça de Slays mas que agora eram consagradas pelo fato de terem sido proferidas por um acadêmico e em ambiente universitário – shazam!), queimavam feito brasa. Slays pensava, imaginava-se, em “close”, de fora de si mesmo e vendo-se a si mesmo pensando, um universitário pensando e que ardia em pensamentos assim:

– Maldito o mundo que se divide entre opressores e oprimidos!...
Chamou um táxi. Entrou. Sentou-se no banco de trás. Disse ao taxista:
– Condomínio Betaville!
– Sim, senhor.

Olhava para a cidade e suas lojas, postos de gasolina, shoppings; o pobres operários que trabalhavam a mando de carrascos grossos e insensíveis: “maldito mundo de dominados e dominadores!”

– Chegamos, senhor.
– Tá aqui o dinheiro, cem reais...
– O senhor não tem trocado? Estou sem dinheiro miúdo...
– Mas que coisa! A obrigação é sua...

O taxista contou as pratas, foi obrigado a fazer um desconto e deu o troco a Slays, em cuja cabeça aquelas ideias ferviam, a injustiça irritava – talvez por isso tenha saído bruscamente, batendo a porta do automóvel com muita força, e nem reparando que várias moedas caíram de sua mão e rolaram pela calçada. O taxista ainda tentou avisar, mas Slays estava em transe.

Apertou a cigarra. O porteiro demorava. Ele ficou apertando, com força: tinha fome, o sol estava a pino! Sai um preto velho do banheiro da portaria, ajeitando as calças. Simpaticamente, o crioulo dá boa tarde, se desculpa e sorri. Slays sobe sem responder, pisando duro nos degraus, praguejando intimamente: “morra, mundo cão; queime, mundo injusto, injusto!”

Chega em casa, suado, faminto:

– Matilde, esquenta o almoço!
– Tá bom, Olavinho...

No telejornal, uma notícia:

– Manifestantes mascarados causam prejuízo e fazem arruaça no centro da cidade!

O lance da máscara o deslumbrou. Com garfo e faca nas mãos, ele espreme os dedos e rosna:

– É preciso ser muito cego para não ver que esses caras lutam contra a opressão. Um mundo injusto desses tem mesmo que ser destruído. Morte aos opressores! Jornalista filho da puta!... Matilde; tô com fome!
– Só um minuto, Olavinho!

O prato era macarronada com carne moída e coca-cola. Slays comeu quase sem mastigar, de muita fome que tinha. Tomou o refrigerante de uma golada só, arrotou e saiu. Na mesa, restaram o prato vazio e copo seco – ah, uns pedaços de comida que haviam caído sobre a mesa e no chão. Matilde limpou tudinho, sem problemas: salvo as costas que doíam um pouco quando ela teve de se abaixar para catar os pedaços de macarrão que estavam grudados no porcelanato.

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