sábado, 15 de março de 2014

Capítulo 04: o nascimento de um guerreiro!

Ah, o descanso do guerreiro!

Slays é bem magrinho, como sabemos. E é daqueles magricelas que comem feito desesperados e não engordam. Era como se tivesse um buraco negro dentro do bucho! Depois de devorar a deliciosa macarronada de Matilde e quase um litro de refrigerante, Slays atravessou a sala de estar, o corredor, o escritório, subiu ao primeiro andar e ligou o condicionador de ar. Deitou-se na cama. Olhava para o teto. Estreitava as pálpebras numa cerração filosofal: “Agora meu nome é Olavo, o Universitário! A bem da verdade, nasci hoje! Ontem, eu era apenas uma criança... Agora, estou no topo da hierarquia intelectual do mundo civilizado... Que frase, ein? Já sinto os efeitos do campus: “hierarquia intelectual do mundo civilizado”; uau! Abaixo de nós está a massa que precisa ser guiada... O mundo é divido entre oprimidos e opressores; o casamento, o salário mínimo, as empresas, a escravidão... Mundo desgraçado, ãããããã...!” Bocejou e caiu no sono.

Acordou às quatro horas da tarde, a boca pastosa, o corpo ainda devagar. Abriu uma latinha de coca-cola que estava no frigobar e sentou-se ao computador. Digitou no buscador as palavras “juventude” “opressão” “justiça” “luta”. Apareceu no topo um tal movimento PLIC-PLOC, num site negro com uma caveira imensa – uau!

Ele entrou e lá estava, num pergaminho digital, o solene Manifesto PLIC-PLOQUISTA:

PLIC-PLOCs somos nós!

“Nós, o movimento PLIC-PLOC, não somos propriamente um movimento. Não temos uma liderança, nem um objetivo específico. Nossa causa é dar causa a uma causa, desde que essa causa tenha sido causada por nós! Nosso poder reside na anarquia, que é a ausência de poder! Não temos ideias fixas, nem transitórias: libertamo-nos de todas as ideias! Queremos revolucionar o mundo e transformá-lo num mundo mais justo e igual, um mundo jamais existente. Que mundo será esse? É um mundo tão sublime e misterioso e lindo que nem mesmo nós, os PLIC-PLOCs, o sabemos descrever. Esse mundo só acontecerá, só mostrará seu rosto depois da revolução! Temos muito ódio do mundo capitalista, mas somos pacifistas, e quando usamos violência é para nos defender da polícia opressora que vai contra a marcha inabalável da história e nos suprime o direito de manifestação: sim, as destruições das “estátuas” do sistema, como lojas e bancos, são atos de manifestação política e artística! Aliás, nós somos a história! A civilização é o tapete sobre o qual a sociedade caminha. Dessa sociedade, não queremos nada senão que ela desapareça. Somos a favor do aborto, a favor da liberação da maconha, a favor do anarquismo, a favor do casamento gay e a favor da constituição da família gay, e somos ateus convictos; somos contra os maus tratos aos animais, contra o tabagismo, contra a supressão do direito constitucional da livre manifestação, contra a entidade familiar burguesa, e contra toda e qualquer fé em Deus e contra toda manifestação favorável ao que somos contra!

Jovens, uni-vos!

Nosso movimento é disperso e unido como um formigueiro. Vocês nos reconhecerão porque estamos sempre de preto: tênis pretos, calças pretas, blusas pretas, bonés pretos. Usamos máscaras do Jason Voorhees. E o principal: estamos sempre mascando chicletes! Assim, quando a burguesia covarde e alienada estiver nas ruas com suas crianças e anciãos, tomará um susto danado ao ouvir os pipocos da mastigação em massa da marcha revolucionária PLIC-PLOC, e se arrepiarão feito um gato siamês diante de um pitbull! Saberão que aquele barulho de saliva, aquelas bolhas estourando, aquela zoada de plástico rasgando, tudo antecede as pisadas fortes dos jovens guerreiros PLIC-PLOCs em suas máscaras de Sexta-feira13! Triunfo, amigos, sobre a barbárie!

Jovem, se você tem o mínimo senso de justiça, e se você não vendeu a alma ao sistema, junte-se a nós!”

Slays estava fascinado, emocionado, os olhos acesos! Imediatamente, começou a fazer seu cadastro no site. Nem olhou os demais, o que continham, que propostas professavam. Nada. Aquele era O site! Mas o movimento era mesmo organizado: você não podia se inscrever com o nome próprio. Eles pediam um pseudônimo, ou nome revolucionário. Slays fora pego de calça curta! Que nome, meu Deus, pensou ele? Pôs-se a andar pelo quarto, meditando:

– Tem que ser num nome forte, que abarque todas as revoluções: a russa, a cubana, a de hoje; claro, a de hoje também! Um nome que rosne, mas que signifique!

Sentou-se na bancada. Pegou um papel e, numa introspecção mediúnica, começou a se contorcer e rabiscar: Slin Jones (não, muito ianque!); Slay Tequila (não, muito mexicano!); Slays (Slays é legal!)..., mas Slays de quê? Slays Homem (não, muito fronteiriço!); Slays Gromer (sinto algo; está perto!). O cansaço mental já o abalava quando ele, num salto, grita: Slays Gronguer! Um nome novo, meio russo, meio deformado. Um nome totalmente antiburguês! Um nome adequado ao mundo novo da revolução. Digitou: S-la-y-s (espaço) G-ro-ngu-e-r (ponto). E, num gesto místico, apertou ENTER numa dedada que quase arrebenta o teclado: Inscrição realizada com sucesso!

Saiu, foi à garagem e subiu em sua mobilete (não sem antes circulá-la como um batman a contemplar o batmóvel). Foi a até a pequena colina artificial de seu condomínio e de lá lançou um olhar afiado à cidade, o mundo injusto de oprimidos e opressores. Sussurrou:

– Aqui estou! Conheça seu carrasco, cidade diabólica; conheça Slays Gronguer!

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