terça-feira, 11 de março de 2014

Capitulo 01: parabéns pra você!

O heroico Slays Gronguer vem ao mundo – dos adultos!

Slays Gronguer nasceu em 1978, numa pequena capital nordestina com cara de metrópole e espírito de interior. Era filho de um engenheiro, dono de uma construtora, e de uma dona de casa. Um casal feliz. Nasceu batizado Olavo Constantino Lobo. Adulto, vinte e um anos completos, em vez de pedido faria uma reclamação íntima, sentimental e funda, ao soprar as velas:

– Nasci num ano péssimo! Novo demais pra viver a luta gloriosa contra a Ditadura Militar; e hoje talvez velho demais pra revolução de comportamento que a juventude faz, destruindo esse lixo chamado a família! Além disso, papai e mamãe me deram um nome também péssimo, muito tradicional, e que por algum motivo me faz ter um mau presságio!* Hei de mudar de nome, já que a idade não dá pra mudar! Mas tudo a seu tempo...

Fechou os olhos e, com uma expressão de malícia e clarividência, apagou as chamas das velas.

Depois, foi coberto de beijos da mãe, e seu papai abraçou-o e à esposa também, e todos, emocionados, ficaram alguns segundos entre “parabéns, meu amor!” e “obrigado, mamãe; obrigado, papai!”

Mas o melhor ainda estava por vir! Slays (ainda nesse tempo Olavo Constantino Lobo, mas vou chamá-lo de Slays desde agora, antecipando-me à autoproclamação revolucionária do nome de nosso rebelde jovem) havia pedido de presente um tênis tipo basqueteira aos pais. Tinha certeza de que o ganharia, pois era tradição da família atender aos pedidos do filho (único) Slays no aniversário. Além do mais, iria precisar dela para ir à faculdade de Direito, curso que começaria a fazer depois de ter perdido três vestibulares seguidos – perdeu na redação que, segundo os julgadores, carecia de concatenação lógica. Naquele momento, ele só possuía chinelas havaianas e um All Star surrado, ainda dos tempos de colégio – também, quase não saía de casa...

No entanto, seus pais, que estavam muito comovidos por dois motivos: a aprovação no vestibular e a simbólica chegada aos vinte e um anos, acontecimentos que os faziam, finalmente, ver seu filho como homenzinho, preparam para Slays uma surpresa ainda maior! Depois dos parabéns, a mamãe tampou seus olhos com as mãos e saiu a guiá-lo para a garagem de casa, onde seu papai o aguardava. Lá, ao redor de um embrulho enorme, em forma de pirâmide, com um laço de um metro de largura no topo, estavam seus avós, uns primos mais chegados e dois ou três amigos dos tempos de escola. A mamãe desvendou os olhos de Slays. Ele olhou, intrigado, para aquele monumental embrulho. Passou a vista também nos familiares e amigos, todos sorridentes e com olhares em brasa. Seu papai, que era, como dissemos, engenheiro, havia amarrado uma corda no topo do embrulho, com duas ou três polias e, sem mais demora, puxou-a até ver aparecer o fantástico presente de Slays...

Diante da visão, Slays permaneceu boquiaberto, sem piscar, paralisado no tempo e no espaço! Virou as palmas das mãos na direção do presente, embasbacado, incrédulo, braços estendidos. Seus pais se emocionaram e verteram lágrimas... De repente, ele dá um salto e grita:

– Ganhei uma mobilete!!!

Na garupa da mobilete havia outro embrulho, grande também, em forma de saco de Papai Noel, amarrado pela boca com uma liga de borracha. Slays o desamarrou e saiu tirando o que havia lá, e foi alinhado tudo no chão: duas joelheiras, um capacete, duas cotoveleiras e, lá no fundo, uma basqueteira, cano longo, com uma língua enorme; exatamente a que Slays havia desejado!
Correu e abraçou seus pais. O velho encarou-o e disse:
– Muito cuidado, meu filho! Eu nunca gostei dessa idéia de moto, você sabe disso! Você só pode andar com ela aqui pelo bairro, ouviu? Quando você for adulto, digo, quando tiver seu emprego e sua família, você pode comprar uma moto grande... Mas acho que a maturidade vai ensinar que o risco não vale a pena... Aproveite!
Slays vestiu seus apetrechos (basqueteira inclusive), montou na mobilete, deu umas pedaladas para acionar a partida, torceu a manopla algumas vezes, fazendo o motorzinho roncar, e saiu pelo bairro, feliz, acelerando – no começo meio desequilibrado, mas logo pegando o jeito da coisa –, ele, um jovem de corpo magérrimo e longos cabelos em rabo de cavalo.

***

Bem, não era propriamente um bairro, mas um condomínio de casas fechado e exclusivo: o Betaville...

***
Depois de muito rodar, Slays voltou para casa. Um primo, Ricardinho, de uns quinze anos, pediu para dar uma volta na mobilete. Slays olhou-o de viés, pensando “de jeito nenhum...” Mas Slays não era tonto... Sabia que se negasse só por negar, ficaria chato: Slays já era maior de idade e universitário, afinal! Ricardinho seria capaz de correr até a pérgula e falar ao seu pai, que estava tomando uísque com o pai de Slays, e eles poderiam obrigar Slays a emprestar a mobilete... Slays foi mais sagaz: alisou os cabelos do priminho e disse:

– Ricardinho, acabou a gasolina... Mas sabe de uma coisa, vovó me deu de presente Jedai War III – O Bem vence o Mal, Espanta o Temporal! Vamos jogar?
Ricardinho topou na hora, mas não sem antes lançar à mobilete um olhar de frustração, desesperança...
Jogaram videogame até altas horas, quando o pai de Ricardinho, já trocando as penas, veio chamá-lo.

– Vamox que sua mãe extá em caja...

– Tá, papai...

Saíram a pé, pois eram moradores do mesmo condomínio.

Slays achou foi bom: ficou jogando, sozinho, até mais tarde. Tinha perdido o sono com essa mistura explosiva de emoções, chocolate e coca-cola.

Para conseguir pregar os olhos, deitou-se e releu um gibi que ganhara de um amigo que conseguiu passar no vestibular de primeira – um gibi universitário! Esse gibi era interessante: coisa de adulto mesmo! Mostrava a Slays a guerra entre oprimidos e opressores, durante uma ditadura militar em Latino-América. O herói, Sancho Prático, costumava andar pelas cidades de violão em punho, espalhando pelo ar canções de protesto e flertando com as virgens que não se venderam ao sistema. Mas a poesia tinha limites!; pois, se Sancho via um militar opressor, ou um empresário rico e pançudo, sacava da valise uma flecha, esticava-a na corda mais grave (afinada em mi) do instrumento e zap!, acertava sempre! Nos militares, entre as pernas; nos empresários, na barriga: ficavam os corpos estendidos e a corda vibrando no ar uma nota triunfal!... No fim, Sancho vence a guerra e o país se torna uma festiva aldeia indígena, a Feliz-Para-Sempre, sem doenças, idiomas, livros nem tecnologia, tendo todos os imperialistas opressores sido expulsos rumo ao norte, onde vão viver suas vidas sem sentido em elegantes subúrbios repletos de futilidade.

***

Slays fechou os olhos e as páginas e se imaginou numa oca à beira de um rio, naquele país reconstruído por Sancho à imagem do passado. Um rio sereno, equilibrado, de onde vinha uma brisa friinha e com cheiro de eucalipto e mata atlântica (tipo: cheiro de jardim em dia chuvoso...); brisa boa, pura, constante e das águas direto para sua cama... Dormiu profundamente... Acordou, no entanto, com os lençóis molhados de xixi – coca-cola demais só dá nisso! Maldita coca-cola!

*Mistura de Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Lobão.

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